O Corpo como Mapa: Quando os Afetos se Tornam Sensações Físicas
O Corpo como Mapa: Quando os Afetos se Tornam Sensações Físicas
Você já parou para perceber que, muitas vezes, aquilo que chamamos de "dor" não começou no músculo ou no osso, mas sim em um silêncio prolongado ou em uma emoção não digerida? Vivemos em uma cultura que tenta separar a mente do corpo, como se fossem duas entidades distintas habitando o mesmo espaço por acaso. No entanto, a verdade é mais profunda e integrada. Os afetos são estados psíquicos que, inevitavelmente, se fazem sentir na carne; o corpo é o palco onde nossas emoções encenam suas verdades mais urgentes.
Quando ignoramos o que sentimos, o corpo assume a tarefa de expressar o que a boca calou. Entender essa dinâmica não é apenas uma questão de saúde, mas um passo fundamental na jornada de quem busca compreender a si mesmo e transformar sua realidade.
A Origem do Sentir: O Que São os Afetos?
Para compreendermos como essa "mágica" biológica acontece, precisamos olhar para a origem das palavras, pois elas carregam a alma dos significados. A palavra "afeto" vem do latim affectus, que deriva de afficere. Este termo significa "fazer algo a alguém", "influenciar" ou "tocar".
Portanto, ser afetado por algo não é uma fraqueza; é a prova de que estamos vivos e em interação com o mundo. Um afeto não é apenas um pensamento abstrato que flutua em nossa mente; ele é uma força, uma energia que nos mobiliza. É uma alteração no nosso estado de ser que exige uma resposta. E quando a mente consciente não dá vazão a essa energia, ela busca outro caminho para escoar: a nossa biologia.
Quantas vezes você engoliu uma resposta e sentiu o estômago queimar logo em seguida? Ou quantas vezes o medo do futuro se transformou em uma tensão rígida nos ombros? O afeto é a ponte entre o mundo invisível dos sentimentos e o mundo visível da matéria.
O Diálogo Interno e a Escuta do Corpo
O corpo possui uma sabedoria ancestral. Ele não mente. Enquanto nossa mente pode criar narrativas para justificar comportamentos ou esconder traumas, o corpo reage de forma autêntica e imediata. Ele é como um barômetro da nossa verdade interior.
Reflita por um instante: como está a sua respiração agora? Ela flui livremente ou está curta e presa no peito? E a sua mandíbula, está relaxada ou travada?
Esses pequenos sinais são a linguagem dos afetos. Quando estamos tristes, o corpo tende a se fechar, os ombros caem, a energia vital diminui, como se a gravidade pesasse mais sobre nós. Quando estamos eufóricos, o peito se abre, o olhar brilha, o sangue corre mais rápido. Não há como sentir uma emoção sem que haja uma correspondência fisiológica.
Ignorar essa conexão é como tentar dirigir um carro ignorando as luzes do painel. A luz de alerta não é o problema; ela é o aviso de que algo no motor precisa de atenção. Da mesma forma, o sintoma físico muitas vezes é o aviso de que uma emoção precisa ser acolhida, compreendida e elaborada.
3 Exemplos Práticos da Conversa entre Emoção e Matéria
Para ilustrar como essa dinâmica ocorre no nosso dia a dia, vamos observar três situações comuns onde o psíquico transborda para o físico.
1. A Ansiedade e o "Nó" no Estômago O estômago é frequentemente chamado de nosso "segundo cérebro". Diante de uma situação de perigo iminente ou de uma preocupação excessiva com o futuro, o corpo se prepara para lutar ou fugir. O sangue é desviado da digestão para os músculos. O resultado é aquela sensação de vazio, enjoo ou "borboletas" dolorosas. Não é algo que você comeu; é algo que você está sentindo e não consegue digerir emocionalmente.
2. A Raiva Reprimida e a Tensão Muscular A raiva é uma emoção de ação, uma energia que pede movimento e limites. Quando somos contrariados e, por educação ou medo, engolimos essa fúria, ela não desaparece. Ela se aloja na musculatura. É comum que pessoas que têm dificuldade em expressar descontentamento sofram com dores crônicas no pescoço, trapézio e mandíbula (bruxismo). O corpo fica rígido, segurando o golpe que a alma queria dar.
3. A Tristeza e o Cansaço Inexplicável A tristeza é um afeto que pede recolhimento e introspecção. Quando não nos permitimos chorar ou viver o luto de uma perda (seja de uma pessoa, de um emprego ou de um sonho), o corpo pode manifestar uma fadiga extrema. É aquele cansaço que nenhuma noite de sono resolve. É o peso da "água" das emoções que não fluiu, estagnando a vitalidade do organismo.
Perguntas Frequentes (FAQs)
O que eu sinto no corpo é real ou coisa da minha cabeça? É absolutamente real. A origem pode ser psíquica (emocional), mas a manifestação é biológica, envolvendo hormônios e impulsos nervosos. A dor física causada por uma emoção dói tanto quanto uma lesão física.
Como posso parar de somatizar meus sentimentos? O primeiro passo é a consciência. Comece a nomear o que você sente. Em vez de dizer apenas "estou com dor de cabeça", pergunte-se: "o que aconteceu hoje que me deixou tenso?". Falar sobre os sentimentos em um ambiente seguro, como na análise, ajuda a dar destino a esses afetos.
Todas as doenças têm origem emocional? Não podemos generalizar. Somos seres complexos biopsicossociais. No entanto, o estado emocional influencia diretamente o sistema imunológico e a capacidade de recuperação do corpo. Cuidar da mente é, invariavelmente, cuidar da imunidade do corpo.
Conclusão
Entender que os afetos são estados psíquicos que se fazem sentir no corpo é um convite para uma vida mais integrada e honesta. Não precisamos ser reféns de nossas emoções, nem vítimas de nossos sintomas. Podemos, sim, aprender a ler o mapa que nosso corpo desenha todos os dias.
Ao acolhermos nossos sentimentos, damos a eles o direito de existir sem que precisem gritar através da dor. Que possamos olhar para nós mesmos com mais compaixão, entendendo que cada sensação é uma peça valiosa na arquitetura do nosso ser. O corpo afetado é, antes de tudo, um corpo que está vivo e pedindo para ser escutado.
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Referências Bibliográficas:
- DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
- FREUD, Sigmund. Inibições, Sintomas e Angústia. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
- JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2013.
- SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

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